Cannes 2009

25/05/2009
Prêmio de atriz para Charlotte Gainsbourg em Cannes 2009

Prêmio de atriz para Charlotte Gainsbourg em Cannes 2009

Cannes distribuiu os prêmios hoje e não teve nenhuma surpresa. Haneke, que já era favorito de antemão pelo fato de Isabelle Huppert ser a presidente do Júri, levou a Palma de Ouro por aquele filme que alguns dizem ser o seu melhor. A França deixou de bisar o prêmio máximo com o favorito de metade da crítica internacional, Un Prophéte.

Fiquei muito feliz com o prêmio pra Gainsbourg. Além de estar esperançoso e muito com o novo Von Trier, sou maior fã dela desde o I’m Not There, além de já adorar ela em outros filmes (Mundo Novo do Crialese por exemplo).

De outra forma interssante também o prêmio de roteiro para Spring Fever, de um cineasta que é barrado lá na China. Prêmio político? E Resnais com um prêmio de consolação, como ele mesmo definiu. E o prêmio pra Andrea Arnold, seu segundo filme, segundo prêmio em Cannes. Red Road eu odiei. E nada pra Almodóvar com seu Los Abrazos Rotos.

Só resta agora esperar que todos ou quase todos destes filmes venham para o Festival do Rio. Ou seria sonhar demais?

Palma de Ouro
“Das Weisse Band”, de Michael Haneke

Grande Prêmio do Júri
“Un Prophète”, de Jacques Audiard

Prêmio do Júri
“Fish Tank”, de Andrea Arnold e “Bakjwi”, de Park Chan-Wook

Prêmio de direção
Brillante Mendoza (“Kinatay”)

Prêmio de roteiro
“Spring Fever”, de Lou Ye

Prêmio de melhor atriz
Charlotte Gainsbourg (“Anticristo”)

Prêmio de melhor ator
Christoph Waltz (“Bastardos Inglórios”)

Palma de Ouro de curta metragem
“Arena”, João Salaviza

Menção especial na seleção de curtas
“The six dolar fifty man”, de Mark Albiston e Louis Sutherland

Prêmio Câmera de Ouro, para diretor estreante
Warwick Thornton (“Samson and Delilah”)

Menção especial do prêmio Câmera de Ouro
“Ajami”, de Scandar Copti e Yaron Shani

Prêmio especial do júri pelo conjunto da carreira
Alan Resnais

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Tênis e Roland Garros 1999

23/05/2009

Aqui no meio da arrumação da estante de livros, vendo um blog de tênis sobre as previsões de Roland Garros, que começa amanhã, me lembrei da época em que era realmente fissurado por tênis.

Claro que tudo começou mesmo por causa da Era Guga. Num final de semana de junho de 1997, a notícia de que um brasileiro estava indo muito bem no torneio mais importante do mundo. Nas semis, iria enfrentar um belga que nem lembro o nome, adversário perigosíssimo talvez (Filip Dewulf, que veio do quailifier e nem era nada no mundo do tênis, mas ah, as memórias e a infância). O jogo passou na Manchete, e não é exagero em falar que foi a primeira vez que assisti a um jogo do tal esporte.

Não a primeira vez que acompanhei lances, CLARO, porque em 1996, o tenista de maior destaque até então do país, Fernando Meligeni tinha ido longe (semifinais) nas Olimpíadas, mas acabou ficando só em quarto lugar e por chegar pertinho da medalha eu dei uma atenção ao esporte, mas não cheguei a ver um jogo completo.

Voltando a Roland Garros. No domingo seguinte, acordar cedo para ver a final, versus Sergi Brugera, um espanhol que foi duas ou três (duas) campeão anteriormente. Mas foi uma final tranquila, em 3 sets simples. Um novo esporte se abria. Em questões de dias já sabia tudo sobre Thomas Muster, Michael Chang, Gabriela Sabatini, Steff Graff, Andre Agassi,  e a nova sensação / super-campeã-aos-16-anos Martina Hingis. Já brincava de tênis inclusive no meu quarto (sim, sozinho eu era anti-social, autista e doido já aos 10 anos).

Guga demorou porém para embalar. Esse post todo é sobre isso na verdade, Roland Garros, 1999 porque eu me lembrei vendo um texto/vídeo em homenagem aos 13 anos de um título do Fininho em um aberto americano. E RG ficou marcado na minha memória por muitas coisas aquele ano, inclusive ele.

Eu tinha já TV a cabo, primeiro ano então que pude acompanhar pela ESPN. Em 1998 Kuerten ainda era um tenista se firmando, parou na segunda rodada. 1999 mostrou ele já como um dos principais tenistas do momento, número 8 do mundo.

Ajuda do wikipedia agora… Pois bem, vamos lá: Vitórias sobre Galo Blanco Guillermo Cañas e Sjeng Schalken (yuhu holanda, um dos meus tenistas favoritos). Nisso Fernando Meligeni que era “o outro brasileiro” também vinha de campanha sólida e ganhou do terceiro cabeça-de-chave o galã australiano Patrick Rafter, e eram dois brasileiros nas oitavas. Na escola, todos meus amigos também acompanhavam e alguns jogavam inclusive. Na sexta, uma atenção especial “eram os 32 melhores do mundo que ficaram”. Existia um grande respeito por tudo aquilo. No domingo o Guga ganhou do tcheco Bohdan Ülihrach e na segunda (ou eu tou invertendo) Meligeni ganhou do espanhol cabeça 14 Felix Mantilla. And then there were sixteen.

Era tudo muito mágico, meu primeiro torneio e dois brasileiros nas quartas podendo se enfrentar na semi.  Antes a ATP tinha um ranking genial em que além dos pontos ganhos a medida da rodada em que você avança, também tinha um bônus de acordo com o ranking do adversário. Isso claro beneficiava quem passasse por gente de maior calibre. E com a queda de todos os principais tenistas da época em velhos tempos (não necessiaramente bons, mas enfim) em que o ranking da ATP era embaralhado se Guga fosse campeão (o que parecia a coisa mais óbvia) ele poderia subir ao número 1, mas somente enfrentando Alex Corretja nas semis – o adversário de Fininho nas quartas.

Ficou a grande dúvida então, e uma pergunta ao Guga – “Você prefere enfrentar o Corretja ou o Meligeni?”. Claro que ele respondeu o Meligeni né. havia um gráfico imenso de duas páginas no LANCE! com todas as possibilidades de pontuação. Mas o que ninguém esperava era que aquele ucraniano desconhecido (para mim) Andrei Medveded, o principal rival de Brugera no saibro em meados dos anos 90, fosse ganhar em 3 sets diretos o nosso herói. Sobrou estranhamente Fininho que passou por um abatido Corretja em 3 sets fáceis. Foi um jogo mais duro para o ucraniano, mas naquela sexta Meligeni encerrava sua melhor campanha na carreira.

Foi estranho acompanhar aquela final sem brasileiros no domingo. Mesmo que tivesse uma sensação de que fosse melhor Medvedev ganhar por Guga e Fernando terem perdido para o campeão e de ser algo completamente inesperado eu já gostava um pouco do americano Andre Agassi (e gostei mais ainda quando virou um 0-2 pra ganhar no quinto set), que com o título foi o primeiro a muito tempo a ter os quatro Grand Slams no currículo.

Outras memórias inesquecíveis do tênis viriam. Acompanhar no ano seguinte o final da primeira semifinal de Roland Garros seguida de Guga e Juan Carlos Ferrero (dois jogos inesquecíveis) na rodoviária antes de ir para o Rio e lá ver Guga ser tricampeão sobre Magnus Norman. Ferrero, aliás, o “mosquito” acabou de retornar das cinzas ganhando um título da ATP e é o número 100 do mundo ou por aí. Para quem não conhece ele era a grande sensação do saibro no começo da década e prometia tudo o que Rafael Nadal acabou sendo.

Outro jogo foi quando já no limiar da carreira, Guga ganhou do número 1 Roger Federer na segunda rodada de Roland Grros em 2004. Mas infelizmente acabou parando nas quartas contra o forte David Nalbadian em um grande jogo. E ainda o inesquecível jogo contra Michael Russel nas oitavas ou terceira rodada? (foi um domingo, eu lembro) em que salvou um match point com direito a bola na linha-mas-quase-pra-fora (ou o contrário) rumo ao tricampeonado. Ou ainda um torneio em Wimbledon em 2001 em que os brsileiros foram super bem e eu meio que acompanhei enquanto ia ao centro de Campos assistir aula de inglês(ou fazer prova de segunda chamada mais provavel) em uma sala que me lembrava muito a Londres de Mary Poppins.

Enfim, aquele Roland Garros de 99 ainda ficaria na minha memória por muitas outras coisas. A final feminina em que a grande pequena Martina Hingis perdeu o controle e chorou muito entre o segundo e terceiro set (inclusive um bom tempo trancada no banheiro) depois de ter o jogo nas mãos e perder pra grande Graff.

E o ápice do meu amor pelo tênis, que ainda tem algumas boas revivadas, como na campanha do Bellucci no Brasil Open, ou qualyfing de Roland Garros em que Thiago Alves quaase foi mas não foi. Marcos Daniel (que enfrenta Rafa na primeira rodada) Thiago Bellucci e Franco Ferrero. Eu sem SKY ou Viacabo ou a velha CVC… pelo tenis brasil, mas 2009 não é mais 99.

Só agora que percebi que fazem 10 anos. E nossa, o que mudou desde aquela época… Continua sendo tudo muito importante pra mim, se não fosse não teria perdido uma hora aqui falando as 4 da manha com o quarto todo bagunçado.

99 foi o meu grande primeiro ano, na escola, no cinema, no tênis, os três interligados. Na música, na tv, em tudo. Mais do que simples saudades, memórias fortes. A preservação começa na mente.


O Equilibrista

21/05/2009

man on wire

Quando o filme passou no Festival do Rio, em 2008, juro que não comprei muito a tagline sobre um homem que andou em um fio entre as duas Torres Gêmeas, na década de 70. Depois virou febre no final do ano, teve 100% de aprovação no Rotten Tomatoes (não sei se permanece assim), e era a maior barbada do Oscar, na categoria de documentário, e fiquei morrendo de vontade de ver.

Está numa passagem meteorica pelos cinemas cariocas, em apenas uma sala. Vi hoje a noite, e nossa, que maravilha. O filme não é, de maneira alguma sobre o Philippe Petit, até porque dele apenas sabemos coisas que o levaram a realizar o grande ato: Os treinamentos, a preparação, a relação com os amigos que o ajudaram e outras duas vezes em que ele andou em cima de um arame (man on wire), em cima da Catedral de Notre Dame e numa ponte em Sydney, além de toda a paixão que ele tinha pelas Torres Gêmeas, em uma história certamente exagerada, se não inventada (segundo ele, ao ver a foto de um projeto de construção do WTC quando criança se apaixonou imediatamente e nunca mais deixou de pensar nele).

De fato, o filme trata sobre eventos extraordinários, que não precisam acontecer exatamente com pessoas extraordinárias ou em momentos extraordinários, mas que de fato signifiquem algo para a nossas vidas. É sobre os momentos que nos definem, sobre não se contentar com algo, e ao mesmo tempo privilegiar algo de especial e não tentar esgotar, não se repetir, e sempre se inovar. Inclusive, Petit parece mais empolgado em falar sobre a noite de amor que teve com uma admiradora depois do feito do que a própria caminhada.

As reconstituições são maravilhosas e acrescentam um tom todo especial ao filme, assim como os depoimentos maravilhosos dos que protagonizaram o ato. A entrada de cena de cada um, aliás, é engraçadissima, e a trilha musical, assinada por Michael Nyman, é sensacional.

É engraçado ainda como os EUA viam de um jeito todo especial a caminhada de Petit em 1974 e analisam o filme de um modo todo diferente. É enfatizado no filme, que jornalistas e policiais perguntavam a todo momento a razão dele ter feito aquilo, tentando objetivar um fato meramente artístico. Os filmes, aliás, precisam de uma razão para existirem? Ou digamos uma fotografia esplendorosamente criada? Isso é uma pergunta que o filme não tenta expandir diretamente para o conceito total, mas deixa claro em nunca oferecer ou tentar uma explicação racional para os atos de Phillipe.

E ainda é interessante ver como a maior parte da crítica americana, relaciona o filme à queda das Torres em 2001, e em como o filme “escolheu” não mostrar. Para mim, não houve escolha, em nenhum momento era necessário. Talvez por ser algo muito próximo a eles, e de certa maneira o filme falar sobre os momentos que não podem ou devem ser repitidos, neste caso por uma infelicidade da história / destino, ou seja lá o que for. Mas isso nunca se impõe a narrativa, e o filme de James Marsh navega brilhantemente.


O Equilibrista
Man on Wire
2008, RUN/EUA. 94min
de James Marsh.
Com Philippe Petit, Jean François Heckel, Jean-Louis Blondeau, Annie Allix, David Forman, Alan Welner, Mark Lewis, Barry Greenhouse, Paul McGill, David Demato, Ardis Campbell, Aaron Haskell, Shawn Dempewolff-Barrett, Jim Moore, Guy F. Tozzoli.


Últimos Dias

17/05/2009

last_days_2005_imagem_filme_08

“Últimos Dias” (“Last Days”, 2005, EUA) de Gus Van Sant. Com Michael Pitt, Lukas Haas, Scott Patrick Green, Asia Argento, Nicole Vicius, Ricky Jay, Ryan Orion, Harmony Korine, Adam Friberg, Andy Friberg, Thadeus A. Thomas.

É bem engraçado perceber como os filmes de Gus Van Sant se comportam. Alguns de seus filmes, geralmente os mais comerciais, parecem um tanto otimistas e sempre tratar de superações, mesmo que quase sempre acompanhado de um tom irônico e sarcástico, como se de verdade ele soubesse que tudo aquilo não passa de uma visão utópica, e nisso reside a grande força da cena final de “Milk”, por exemplo.

Mas alguns outros fazem parte de filmes que examinam a humanidade de uma maneira nada positiva. “Últimos Dias” que infelizmente foi lançado direto em DVD no Brasil, pertence a este grupo. Nele vemos Blake(Michael Pitt, numa atuação fora de série), um famoso astro de rock que foge de uma clínica e se refugia numa casa onde estão alguns amigos.

Desde o primeiro plano, vemos Blake caminhar a esmo em uma floresta. É sobre isso que o filme trata, a falta de rumo deste personagem, que tenta fugir a princípio da pressão do mundo empresarial, mas resumir a apenas isso seria simplista demais. É uma rebeldia sem causa praticamente, sem saber de que exatamente está se escapando e pior ainda não ter nenhuma esperança de alcançar uma luz.

Não à toa, o filme opta por tons muito escuros, acentuando este desespero do protagonista, que se estende também aos demais personagens. Enquanto Blake permanece num mundo próprio, com raros momentos de contato exterior, acentuando todo esta apatia, os outros continuam ali, em um jogo social, mesmo que entre eles, mas que também não parece apontar para nenhuma resolução. Escondidos no mundo, procuram soluções entre si, mas nunca conseguem chegar perto.

No final, com a morte de Blake, eles continuam sua jornada, agora fugindo dos rastros que possam os conectar à tragédia. Suas buscas incessantes continuam, permanecer sempre em movimento para tentar encontrar uma saída, que Blake de certa forma encontrou, com a subida de sua alma. Não é exagero nenhum, a meu ver, comparar a história dele à de Jesus, corroborada pela aparição dos 2 irmãos gêmeos que tentam evangelizar os moradores da casa, e contam a história de Jesus, aproximando muito Blake de um Cristo revisitado.

É impressionante ainda o trabalho de som do filme, e para quem vai ver o filme em casa é imprescindível botar o volume nas alturas. O som tem uma presença muito marcante em acentuar a solitude que Blake vive, em um mundo próprio sem contato externo. Leslie Shatz, inclusive recebeu o prêmio técnico no Festival de Cannes.

Perto do fim, quando Blake se aventura em deixar o refúgio e chegar numa festa, cheia de amigos seus e pessoas próximas a seu estilo, o filme mostra que elas estão igualmente perdidas, o que se acentuaria enormemente nos próximos anos. Blake percebe isso e decide retornar ao seu destino.