O velho, o novo e o eterno

01/09/2011

Com mais de uma hora entre o fim de “Photographic Memories” e o início de “Um éte brûilan”, resolvi andar um pouco e sentar aqui na praia do Hotel Excelsior, que fica na frente do pavilhão de Cinema da Bienalle. Tomar uma coca, me preparar pra não dormir no próximo filme e escrever um pouco, além de admirar a paisagem. Ainda tá sol, mas não tanto quanto fez ontem e antes-de-ontem, mas a vontade de ir na praia continua. Só falta descobrir um dia bom e torcer para não cair o toró que teve mais cedo. Acabei encontrando com uma menina que adora os brasileiros, gritou pra um cara que trabalha aqui, mostrou uns presentes que recebeu de uma amiga que veio de Salvador e não sei se foi por coincidência tá tocando Ivete Sangalo agora.

Mas voltando a Veneza não bahianizada, é incrível como vendo o povo na praia, os meninos jogando futebol, as meninas se bronzeando, as famílias, não consigo deixar de pensar em Visconti. Acho que ninguém simbolizou tão bem o modo de ser ocidental como ele, com um culto aos corpos, valores e relações como ainda se pode detectar hoje. Nem só “Morte em Veneza”, meu filme favorito, penso mais em “O Leopardo” e especialmente “Violência e Paixão”, os dois que revi esse ano. Mas talvez toda a carreira dele seja no padrão desses três, não me lembro muito bem na verdade – com exceção de “Rocco”, outro que amo, mas de forma meio estranha. Me deu vontade de ver os filmes que não conheço dele – e rever tudo, naturalmente.

“India: Matri Bhumi” (1959, Itália/França) de Roberto Rossellini 2,5/10

Quase uma década depois de Jean Renoir filmar “O Rio Sagrado” na Índia, Rosselini volta ao país para filmar esse título quase desconhecido da sua filmografia. Mas ao contrário do quase “descobrimento ocidental” que Renoir fez, Rosselini aqui parece meio pálido, criando uma caricatura meio forçada das personagens orientais. Enquanto Renoir situava seu núcleo em uma família ocidental e teve o mérito de ser talvez o primeiro filme americano a ser filmado na Índia (e mostrar as belezas de lá, a cultura, etc), Rossellini fica num conflito de indianos, que nunca parece ser real.

Aliás, é importante lembrar que nesse meio tempo já tinha surgido Satiyajit Ray e outros. Não sei muito bem o que Rosselini pretendia lá. Primeiro vemos um jovem indiano e sua vida, em forma de documentário, e parece que ele foi vendido como tal, mas a narração e o próprio formato de filmagens deixa claro se tratar de uma tentativa de tentar capturar um movo de vida não tradicional, ao estilo Nanook. É engraçado como ele apesar de mostrar de uma maneira negativa a forma com que em determinado ponto o protagonista briga com sua esposa, ele nunca parece cogitar em dar a voz a ela também na narração.

Há imagens bonitas, especialmente de elefantes, e a restauração parece boa sem ter alterado muito a fotografia original, mesmo com a digitalização e atualização de cores, já que os materiais positivos de preservação estavam descorados. A mudança de foco no final também não ajuda em nada e parece um pouco precipitada.

 

“Photographic Memories” (EUA/França) de Ross McElwee  5/10

 

Um filme meio estranho, que por muitas vezes cai no vergonha alheia: Um cara de cinqüenta anos, diretor experimental, daqueles que saem filmando tudo de sua própria vida, resolve fazer um filme sobre sua relação complicada com o filho, Aidan. Desde os tenros momentos da infância, registrados em vídeo numa paz absoluta, até os atos de rebeldia da adolescência.

O  engraçado é que apesar do filho claramente se sentir um pouco chateado com aquela filmagem toda em sua vida, ele mesmo acabou mexendo com direção, fazendo filmes, registrando vários momentos de sua vida com os amigos e durante suas aventuras em esqui. Além disso, ele trabalha com muitas coisas em mídia, faz camisas, tem o próprio site, e sintoma de sua geração, fica o tempo todo em redes sociais, celulares, aplicativos, computadores, etc.

É isso, basicamente o que o pai não consegue entender: Existem cenas clássicas, quase encenadas de tão óbvias: Ele tentando conversar com o filho e este ocupado no computador. Os dois ficam brigando tanto (além do uso do filho de drogas e álcool) queRoss decide se por no lugar do filho: Resolve relembrar sua vida por volta dos 21 anos, idade do filho: Abre seus diários, vê suas fotos e resolve voltar a França, aonde passou 1 ano para reencontrar o antigo chefe e a ex-namorada. Pensa que assim ele pode entrar mais em contato com o filho.

No retorno a casa, parece que tudo se resolve: O filho diz que vai fazer faculdade de cinema (antes dizia que faculdade não era pra ele), e que acordou com a ideia de fazer um filme: Ele acorda, bebe, sai pra praia e começa a correr.Basicamente, ele finalmente conseguiu dobrar o pai com o cinema, e pra mim fica uma dúvida se Ross percebe isso ou não. Talvez tenha sido tudo uma trajetória de autodescobrimento para Ross, o que sinceramente espero que seja, pois se não foi uma hora e meia sacaneando o filho.


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Melhores Filmes lançados no Brasil em 2009

25/12/2009

1- [10] Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road, 2008, EUA/RUN) de Sam Mendes

Um filme assustador, que segue com ritmo impecável. Kate Winslet em uma das melhores interpretações da história do cinema, se não a melhor. Leo Di Caprio em seu auge, e cena torturante atrás de cena torturante. A vida, infelizmente, é cruel.

2- [9,5] Amantes (Two Lovers, 2008, EUA) de James Gray

Um filme que se utiliza de todos os clichês da dramaturgia para falar sobre as escolhas da vida. Os desafios, os conflitos, as perdas e as superações forçadas. Uma atuação deslumbrante de Joaquin Phoenix e uma fotografia arrebatadora. A direção de arte é quietinha mas té fantástica também. O pôster de 2001 dá um toque de ouro aos temas do filme.

[9,5] Gran Torino (Gran Torino, 2008, EUA/ALE/AUS) de Clint Eastwood

Eastwood utiliza sua persona como ator de forma perfeita para criar um anti-herói modelo em resposta a todos os tipos que Hollywood nos entrega ano após ano. Se for sua despedida mesmo em frente às telas, não haveria de ser mais perfeita.

[9,5] Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2009, EUA/ALE) de Quentin Tarantino

[9] Aquele Querido Mês de Agosto (2008, POR/FRA) de Miguel Gomes

[9] Ervas Daninhas (Les Herbes Folles, 2009, FRA/ITA) de Alain Resnais

[9] Entre os Muros da Escola (Entre les murs, 2008, FRA) de Laurent Cantent

[9] Desejo e Perigo (Se, Jie, 2007, EUA/CHN/TWN/HKO) de Ang Lee

[8,5] Dúvida (Doubt, 2008, EUA) de John Patrick Shanley

[8,5] Milk – A Voz da Igualdade (Milk, 2008, EUA) de Gus Van Sant

[8,5] As Testemunhas (Les Témoins, 2007, FRA) de André Téchiné

[8] Arraste-me Para o Inferno (Drag Me to Hell, 2009, EUA) de Sam Raimi

[8] A Bela Junie (La Belle Personne, 2008, FRA) de Christophe Honoré

[8] Horas de Verão (L’heure d’été, 2008, FRA) de Oliver Assayas

[8] Glória ao Cineasta (Kantoku | Banzai!, 2007, JAP) de Takeshi Kitano

[7,5] A Troca (Changeling, 2008, EUA) de Clint Eastwood

[7,5] O Equilibrista (Man on Wire, 2008, EUA) de James Marsh

[7,5] De Repente, Califórnia (Shelter, 2007, EUA) de Jonah Markowitz

[7] Apenas o Fim (2009, BRA) de Matheus Souza

[7] Beijo na Boca, Não! (Pas sur la Bouche, 2003, FRA/SUI) de Alain Resnais

[7] Inimigos Públicos (Public Enemies, 2009, EUA) de Michael Mann

[7] Rio Congelado (Frozen River, 2008, EUA) de Courtney Hunt

[7] O Leitor (The Reader, 2008, EUA/ALE) de Stephen Daldry

[7] Polícia, Adjetivo (Politist, adj., 2009, ROM) de Corneliu Porumboiu

[6,5] Eu Te Amo, Cara (I Love You, Man, 2009, EUA) de John Hamburg

[6,5] No Meu Lugar (2009, POR/BRA) de Eduardo Valente

[6,5] Inútil (Wuyong, 2007, CHN/HKO) de Jia Zhang Ke

[6,5] Aconteceu em Woodstock (Taking Woodstock, 2009, EUA) de Ang Lee

[6] Julie & Julia (Julie & Julia, 2009, EUA) de Nora Ephron

[6] Brüno (Brüno, 2009, EUA) de Larry Charles

[6] O Lutador (The Wrestler, 2008, EUA/FRA) de Darren Aronofsky

[6] 500 Dias com Ela ((500) Days of Summer, 2009, EUA) de Marc Webb

[6] Stella (Stella, 2008, FRA) de Sylvie Verheyde

[5,5] O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008, EUA) de David Fincher

[5,5] Se Beber, Não Case (The Hangover, 2009, EUA) de Todd Phillips

[5,5] O Visitante (The Visitor, 2008, EUA) de Thomas McCarthy

[5,5] Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa (2009, BRA) de Oscar Rodrigues Alves, Branco Mello

[5,5] À Procura de Eric (Looking For Eric, 2009, RUN/FRA/ITA/BEL/ESP) de Ken Loach

[5,5] Anjos e Demônios (Angels & Demons, 2009, EUA) de Ron Howard

[5] Austrália (Australia, 2008, AUS/EUA) de Baz Luhrmann

[5] Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos, 2009, ESP) de Pedro Almodóvar

[5] Harry Potter e o Príncipe Mestiço (Harry Potter and the Half-Blood Prince, 2009, RUN/EUA) de David Yates

[5] Bem Vindo (Welcome, 2009, FRA) de Philippe Loiret

[5] Se Eu Fosse Você 2 (2009, BRA) de Daniel Filho

[4,5] Praça Saens Peña (2009, BRA) de Vinícius Reis

[4,5] W. (W., 2008, EUA/HKO/ALE/RUN/AUS) de Oliver Stone

[4,5] Simplesmente Feliz (Happy-Go-Lucky, 2008, RUN) de Mike Leigh

[4,5] Loki: Arnaldo Baptista (2008, BRA) de Paulo Henrique Fontenelle

[4,5] Valsa com Bashir (Vals Im Bashir, 2008, ISR/ALE/FRA/EUA/FIN/SUI/BEL/AUS) de Ari Folman

[4,5] O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married, 2008, EUA) de Jonathan Demme

[4,5] A Erva do Rato (2009, BRA) de Júlio Bressane

[4] À Deriva (2009, BRA) de Heitor Dhalia

[4] Sinédoque, Nova York (Synecdoche, New York, 2008, EUA) de Charlie Kauffman

[4] Frost/Nixon (Frost/Nixon, 2008, EUA/RUN/FRA) de Ron Howard

[4] A Garota de Mônaco (La Fille de Monaco, 2008, FRA) de Anne Fontaine

[4] Uma Noite no Museu 2 (Night at the Museum: Battle of the Smithsonian, 2009, EUA/CAN) de Shawn Levy

[4] Che (Che: Part One, 2008, FRA/ESP/EUA) de Steven Sodebergh

[4] Alguns Motivos Para Não se Apaixonar (Motivos Para no Enamorarse, 2008, ARG) de Mariano Mucci

[4] Anticristo (Antichrist, 2009, DIN/ALE/FRA/SUE/ITA/POL) de Lars von Trier

[4] Star Trek (Star Trek, 2009, EUA) de J. J. Abrams

[3,5] Quem Quer Ser Um Milionário? (Slumdog Millionaire, 2008, RUN) de Danny Boyle

[3,5] Algo Que Você Precisa Saber (Quelque Chose à te Dire, 2009, FRA) de Cécile Telerman

[3,5] Coração Vagabundo (2009, BRA) de Fernando Grostein Andrade

[3] A Ilha da Morte (El Cayo de la Muerte, 2006, BRA/CUB/ESP) de Wolney Oliveira

[2,5] O Menino da Porteira (2009, BRA) de Jeremias Moreira Filho

[2,5] O Caçador (Chugyeogja, 2008, CRS) de Na Hong-Ji

[2,5] Minhas Adoráveis Ex-Namoradas (Ghost of Girlfriend Past, 2009, EUA) de Mark Waters

[2,5] O Solista (The Soloist, 2009, RUN/EUA/FRA) de Joe Wright

[2] Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, 2009, EUA) de Marcus Nispel

[2] Divã (2009, BRA) de José Alvarenga Jr.

[2] De Profundis (De Profundis, 2007, ESP/POR) de Miguelanxo Prado

[2] A Era do Gelo 3 (Ice Age: Dawn of the Dinosaurs, 2009, EUA) de Carlos Saldanha

[1,5] O Exterminador do Futuro: A Salvação (Terminator Salvation, 2009, EUA/ALE/RUN/ITA) de McG

[1,5] X-Men Origens: Wolverine (X-Men Origins: Wolverine, 2009, EUA) de Gavin Hood

[1] Do Começo ao Fim (2009, BRA) de Aluisio Abranches

[1] O Grilo Feliz e os Insetos Gigantes (2009, BRA) de Rafael Ribas, Walbercy Ribas

[1] Transformers: A Vingança dos Derrotados (Transformers: Revenge of the Fallen, 2009, EUA) de Michael Bay

[0,5] A Mulher Invisível (2009, BRA) de Cláudio Torres

[0] Rumba (2008, FRA/BEL) de Dominique Abel, Fiona Gordon, Bruno Romy


1932, Filmes Elegiveis

15/09/2009

Na terça publico os vencedores, e o top10 de filmes.

LONGAS ELEGÍVEIS

  • A Múmia (The Mummy, 1932, EUA) de Karl Freund
  • Ama-me Esta Noite (Love Me Tonight, 1932, EUA) de Rouben Mamoulian
  • Grande Hotel (Grand Hotel, 1932, EUA) de Edmund Goulding
  • Ladrão de Alcova (Trouble in Paradise, 1932, EUA) de Ernst Lubitsch
  • Monstros (Freaks, 1932, EUA) de Tod Browning
  • Mulher Proibida (Forbidden, 1932, EUA) de Frank Capra
  • O Signo da Cruz (The Sign of the Cross, 1932, EUA) de Cecil B. De Mille
  • Os Gênios da Pelota (Horse Feathers, 1932, EUA) de Norman Z. McLeod
  • Pega-Fogo (Poil de Carotte, 1932, FRA) de Julien Duvivier
  • Scarface – A Vergonha de Uma Nação (Scarface – The Shame of the Nation, 1932, EUA) de Howard Hawks
  • Tarzan, o Filho das Selvas (Tarzan the Ape Man, 1932, EUA) de W.S. Van Dyke
  • Two-Fisted Law (Two-Fisted Law, 1932, EUA) de D. Ross Lederman
  • Uma Hora Contigo (One Hour with you, 1932, EUA) de Ernst Lubitsch, George Cukor

CURTAS ELEGÍVEIS

  • Boo (1932, EUA) de Albert DeMond
  • Flores e Árvores (Flowers and Trees, 1932, EUA) de Burt Gillett

1932, Indicações por filme

15/09/2009

NÚMEROS DE INDICAÇÕES


13 Freaks (direção, atriz, atriz coadjuvante, roteiro adaptado, montagem, elenco, direção de arte, figurino, maquiagem, som, efeitos especiais, cena, cena)

13 Love Me Tonight (direção, atriz, atriz coadjuvante, roteiro adaptado, fotografia, montagem, trilha, direção de arte, figurino, som, cena, trilha musical, canção)

10 Trouble in Paradise (direção, ator, atriz, ator coadjuvante, roteiro adaptado, montagem, elenco, trilha, direção de arte, figurino)

10 Scarface (direção, ator, roteiro adaptado, fotografia, montagem, elenco, trilha, direção de arte, som, efeitos especiais)

9 The Mummy (ator, atriz coadjuvante, roteiro original, fotografia, direção de arte, maquagem, som, efeitos especiais, trilha musical)

8 One Hour With You (direção, atriz, ator coadjuvante, montagem, elenco, trilha, som, trilha musical)

8 Poil de Carotte (ator, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, roteiro adaptado, fotografia, elenco, trilha, cena)

7 Grand Hotel (ator coadjuvante, fotografia, elenco, figurino, maquiagem, som, trilha musical)

5 Horse Feathers (ator, roteiro original, maquiagem, cena, trilha musical)

5 The Sign of the Cross (ator coadjuvante, atriz coadjuvante, figurino, maquiagem, efeitos especiais)

1 Flowers and Trees (Roteiro original)

1 Forbidden (atriz)

1 Tarzan, the Ape Man (efeitos especiais)


A TURBA

13/06/2009

The crowd

O cinema de gêneros, é por vezes engraçado. Geralmente indica qual a linha geral da história e não, como o diretor propõe exibir, ou em como o resultado final se mostra ao público. Muitos suspenses, por exemplo, viram comédia, de tão inverossímeis que são. E também muitos dramas se comportam como um verdadeiro filme de terror de acordo com tamanha carga psicológica que carregam. É mais ou menos assim, que A Turba se comporta.

Para explicar um pouco isso, serei obrigado a revelar o final (melhor plano da história do cinema?), mas só um pouco adiante. O filme, se inicia já na virada do século, em 4 de julho de 1900. Enquanto os americanos comemoram o dia da independência, a casa dos Sims se agita com o nascimento do primogênito, John. Está tudo ali: O novo século fará surgir novas pessoas, que crescerão em um mundo que, mesmo não completamente diferenciado daquele que existia no século XIX, seria um complemento de toda a revolução industrial que o mundo assistia, na qual um dos maiores expoentes talvez seja o cinema.

Protagonistas

Não é de se admirar que o Sr. Sims, repita a toda hora: “Meu filho será um homem importante”, “as pessoas falarão deste menino”. Em uma roda de amigos, já aos 12 anos, enquanto as crianças tem noções do que querem ser (“pregador”, “vaqueiro”, etc), John somente responde que seu pai o diz que será alguém importante. Claro que a maioria daquelas crianças não seguirão seus sonhos e fantasias, mas ao menos tem um rumo para seguir. Já John segue um caminho que será muito trilhado pelas crianças do século XX e XXI: Quero ser alguém conhecido, famoso, importante, não importa como. O objetivo é o resultado de todo o trabalho, não o trabalho em si. Não é surpresa, portanto que ele não conseguirá encontrar algo que goste de fazer.

Em 1921, vai para Nova York, e quando o falam que lá é uma cidade grande, que o engole, ele não se mostra amedrontado, e sai falando que está apenas esperando a sua oportunidade surgir para mostrar trabalho. De certa maneira, ele perto do fim, vivencia que esta é uma das frases mais ilusórias existentes, já que para que a oportunidade apareça, ele precisa em primeiro lugar mostrar trabalho. Se aprende esta lição ou apenas entra na máquina da sociedade, é outra história.

A Turba, James Murray, Eleanor Boardman

O tempo passa, e em uma tomada espetacular, a câmera exibe uma miniatura de um arranha-céu, e vai subindo em uma tilt para um dos andares mais altos do prédio e “entra” por sua janela, uma entre centenas de janelas, e estamos diante de um escritório gigante, com centenas de funcionários cada um em sua mesa, trabalhando, como peças de uma grande máquina (primeira imagem do post). Lá está John Sims, apenas um rosto e um número em meio a multidão. Ele também estuda a noite, mas é convencido a sair um dia com um amigo, e lá conhece a garota de seus sonhos, Mary. Juntos,passeiam por Nova York, e em um momento de lucidez, ambos percebem que são apenas parte de uma engrenagem gigante, que é a metrópole. Mas eles (e especialmente John) se acham superiores, têm certeza de que irão escapar daquele labirinto na qual a cidade os prende.

Obviamente, nada segue o planejado. Eles brigam, vivem num apartamento minúsculo, seguem o ritmo que a vida os proporciona. John segue sem promoção e ainda passa a ter dois filhos para criar. A vidinha continua, enquanto John continua atrás de sua grande oportunidade, que parece surgir ao criar o slogan de uma empresa, e um prêmio de 500 dólares. Mas isso acaba trazendo uma grande tragédia, a morte de sua filha, causando uma depressão ainda maior, com a qual ele não consegue mais seguir em frente na vida. Todos os sonhos se perderam ali; ele decide sair do emprego, mas não pára em nenhum, e com isso, sua esposa acaba se decidindo por ir embora. Mas ele consegue um emprego, fazendo malabarismo para chamar a atenção de um anúncio (como o mesmo cara que eles riram durante o passeio pela cidade), e o amor que ela sente por ele a faz permanecer ao seu lado.

A Turba

Alguns planos são muito marcantes, com um estilo que se aproxima muito do expressionista: A cena em que o menino sobe a escada e descobre que seu pai morreu; ele na sala de espera do médico e todos planos envolvendo o grande escritório que o oprime em um trabalho muito bizarro, de botar números praticamente aleatórios numa ficha.

As sequências externas, em sua maioria filmadas na cidade de Nova York, são impressionantes pelo tom realista, auxiliadas por terem sido feitas com câmeras escondidas. Em uma, inclusive um policial ordena que a equipe de filmagens, saia do local, e a cena foi incorporada. Duas cenas em especial, são magníficas: Quando eles voltam num metrô abarrotado, já mostrando que essa vida cotidiana da metrópole que associamos a atualidade, já existia 90 anos atrás; e quando ele sai pela cidade, tentando fazer com que ninguém faça barulho, já que sua filha está no leito de morte, lutando por sua vida.

A Turba

Mas a metrópole esmaga, realmente. O policial, diz, “a cidade não pode parar porque sua filha está doente”. Como ele chega a conclusão, “a multidão sempre ri com você, mas só chora por você um dia”. Assim como é triste que ninguém se preocupe realmente com a situação deste jovem pai desesperado, em nenhum momento de sua pequena tragédia pessoal (vida), ele também pára e percebe nas outras pessoas, que também vivem problemas igualmente massacrantes. Assim é a vida na metrópole, e assim que ela deve seguir.

O filme termina com o casal e seu filho, indo assistir a uma comédia no teatro. Parece ser o típico final feliz: Depois de tanta tragédia e tristeza, a família finalmente pode viver feliz para sempre. Mas Vidor é inteligente, e consegue tratar tudo aquilo como uma forma de escape. No plano final mais genial da história do cinema, após mostrar a família em plano conjunto rindo e se divertindo, ele produz um grande zoom out, e vemos que toda a platéia também está se divertindo bastante com o espetáculo. A multidão, ou a turba, está ali, e todas as pessoas, muito provavelmente passaram pelos mesmos problemas do protagonista. O riso é um escape para todos, mas a tragédia da vida real os espera lá fora.

A Turba, cena final

E mais impactante do que perceber que todos ali na cena levam esta vida miserável, é notar que o teatro nada mais é do que um paralelismo com a sala de cinema em que os espectadores fazem parte de toda aquela farsa. Só que obviamente eles não estarão rindo, e sairão do cinema mais depressivos do que antes. Porém, encontrando ali uma amostra da vida real, em que podem se identificar com os personagens. O final pode até parecer feliz, mas não é nada mais do que trágico, pois mostra um mundo sem esperança. Mesmo que não tenha problema em dar um pause na vida e se distrair um pouco.

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A Turba
The Crowd
1928, EUA
Dirigido por King Vidor.
Com James Murray, Eleanor Boardman, Bert Roach, Estelle Clark, Daniel G. Tomlinson, Dell Henderson, Lucy Beaumont, Freddie Burke Frederick, Alice Mildred Puter.

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O filme não tem em DVD nem nos EUA. É torcer por passar na TV, ou procurar na internet. A cena mais clássica está aí embaixo, a chegada em NY, a cidade das multidões.


Memories…

05/06/2009

Porque a gente as vezes tem essas lembranças que vem do nada né? agora me lembrei da música “Confortably Numb” do Pink Floyd (que aí abaixo, mas no filme “The Wall”) e me veio imediatamente a mente a versão que toca em Os Infiltrados e claro que me lembrei de tudo no filme, em como vi o filme.

Aonde eu vi é fundamental – Cine Palácio, o mais lindo do Rio (pelo menos desde que eu me mudei em 2006), e que fechou inescrupulosamente ano passado. Tá sendo editado um filme justamente sobre o último dia do cinema, dirigido pelo camarada Bruno Forain e feito com um bando de maluco da UFF e sobre as memóras, mas claro que para ele funcionar tem que ser mais amplo. Mas fico pensando, se fosse uma ficção, ccom um personagem e tudo, seria brega mas seria lindo ver os filmes que marcaram a vida dele ali naquele cinema.

Lá, eu vi cópias restauradas de O Homem do Sputnik e O Poderoso Chefão (lindíssima, da coleção privada do Coppola, tanto que foi exibida rolo a rolo), a primeira vez que vi meu filme do coração, Não Estou Lá numa cabine do festival do Rio 2007… e tantos outros filmes…e enfim era lindo lá.

Depois da sessão de Os Infiltrados, em outubro de 2006 quando tinha acabado de sair da casa da minha tia e ido morar sozinho, ainda tive que sair procurando uma lan house aberta pra enviar meus votos do ranking de festivais de 2006. Sinceramente, não lembro se achei ou se votei no dia seguinte e o Chico deixou mas não importa. E eu vi com o Calac, o Marvin da Liga, o filme. Nem lembro de tanta coisa do filme (só que eu fui o único no jornal pra qual escrevia que curti o Whalberg e jurava q o Tio Jack ia levar o Oscar), mas o que ficam são memórias interligadas.

Tou tendo muitas delas ultimamente.

(Ah e semana que vem quero voltar a postar sobre filmes que andei vendo nos cinemas mês passado!)


Cannes 2009

25/05/2009
Prêmio de atriz para Charlotte Gainsbourg em Cannes 2009

Prêmio de atriz para Charlotte Gainsbourg em Cannes 2009

Cannes distribuiu os prêmios hoje e não teve nenhuma surpresa. Haneke, que já era favorito de antemão pelo fato de Isabelle Huppert ser a presidente do Júri, levou a Palma de Ouro por aquele filme que alguns dizem ser o seu melhor. A França deixou de bisar o prêmio máximo com o favorito de metade da crítica internacional, Un Prophéte.

Fiquei muito feliz com o prêmio pra Gainsbourg. Além de estar esperançoso e muito com o novo Von Trier, sou maior fã dela desde o I’m Not There, além de já adorar ela em outros filmes (Mundo Novo do Crialese por exemplo).

De outra forma interssante também o prêmio de roteiro para Spring Fever, de um cineasta que é barrado lá na China. Prêmio político? E Resnais com um prêmio de consolação, como ele mesmo definiu. E o prêmio pra Andrea Arnold, seu segundo filme, segundo prêmio em Cannes. Red Road eu odiei. E nada pra Almodóvar com seu Los Abrazos Rotos.

Só resta agora esperar que todos ou quase todos destes filmes venham para o Festival do Rio. Ou seria sonhar demais?

Palma de Ouro
“Das Weisse Band”, de Michael Haneke

Grande Prêmio do Júri
“Un Prophète”, de Jacques Audiard

Prêmio do Júri
“Fish Tank”, de Andrea Arnold e “Bakjwi”, de Park Chan-Wook

Prêmio de direção
Brillante Mendoza (“Kinatay”)

Prêmio de roteiro
“Spring Fever”, de Lou Ye

Prêmio de melhor atriz
Charlotte Gainsbourg (“Anticristo”)

Prêmio de melhor ator
Christoph Waltz (“Bastardos Inglórios”)

Palma de Ouro de curta metragem
“Arena”, João Salaviza

Menção especial na seleção de curtas
“The six dolar fifty man”, de Mark Albiston e Louis Sutherland

Prêmio Câmera de Ouro, para diretor estreante
Warwick Thornton (“Samson and Delilah”)

Menção especial do prêmio Câmera de Ouro
“Ajami”, de Scandar Copti e Yaron Shani

Prêmio especial do júri pelo conjunto da carreira
Alan Resnais