APENAS O FIM

27/06/2009

apenas o fim

Num ano até agora fraco para o cinema brasilero, não teve nenhuma estréia que mexeu mais com o ambiente cinematográfico quanto Apenas o Fim. Um longa universitário, mas que ao contrário do predecessor da UFF em 2007, Conceição – Autor Bom é Autor Morto, conseguiu boa distribuição e repercussão entre o público.

Em parte porque propositalmente o filme de Matheus quis se direcionar a uma geração jovem atual que ainda freqüenta o circuito de cinemas cariocas. Com esse direcionismo tão atuante, cria-se o grande problema do filme, que é uma necessidade tão latente de se fazer ser entendido por esse público a cada instante. Se uma cena não possui ao menos três referências, seja visuais ou em diálogos, ela não importa.

Assim, boa parte da crítica estava errada tanto em chamar o filme de “um retrato da nova geração” ou indicá-lo como um farol de um “novo cinema”. O filme não tem nada de moderno em sua estrutura, é algo que simplesmente se aproveita de novas referências para parecer atual. Não se cria um retrato de uma nova geração – até porque teríamos que nos referir a ela como uma subgeração, já que só uma parcela específica dos jovens é assim – e sim um almanaque destas pessoas que cresceram na virada do século, e com uma boa bagagem cinematográfica e com acesso aos meios de consumo.

A grande força do filme, porém, reside no fato de que ele é consciente de que tudo isso não passa apenas de um artifício narrativo. Ele em nenhum momento pretende ser tudo isso que lhe pintaram, apenas mostrar os dilemas desta geração, mas sem ser exatamente um produto dela. Os personagens são inverossímeis, em certa maneira, pois são apenas símbolos desta época e deste contexto. Dizer que o filme é autobiográfico é óbvio, mais interessante ainda seria o fato de que muito provavelmente as duas personagens principais são duas faces de uma mesma moeda, ou melhor de um mesmo diretor/roteirista ou da mesma pessoa que se encaixa naquele esquema apresentado.

O filme fala sobre como construímos nosso passado e não nosso futuro. Chegamos agora no final da primeira década, cheio de referências, experiências e entulhos emocionais, afetivos e decorativos, mas que nada adiantam mais. Na primeira dúvida, na primeira encruzilhada, nada mais vale. Tudo se perdeu e a geração apresentada pelo filme, se sente assim, saindo da faculdade, indo finalmente pra vida adulta sem perspectivas ou sem saber de fato como lidar com o mundo.

O final Felliniano e a interferência da metalinguagem só vem pra deixar isso muito mais claro, mesmo que automaticamente isto o deixe mais palatável e bobo. A cena depois dos créditos indica isso, como podemos alterar nossas falhas na vida real em sucesso (em diferentes estilos) no campo artístico. E é exatamente isso que Matheus tenta e consegue.

Mas claro que só aqueles que cresceram na mesma época, viram os mesmos programas de TV, e assistiram a uma penca de filmes cults (sendo que a filmografia de Wong Kar Wai é essencial) podem compreender bem o filme e suas centenas de referências. Porém, uma ou outra não tem como deixar de pegar.

Apenas o Fim

2008, Brasil.

Dirigido por Matheus Souza.

Com Gregório Duvivier, Erika Mader, Marcelo Adnet, Nathália Dill, Anna Sophia Folch, Álamo Facó, Júlia Gorman.

stars4.1

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A TURBA

13/06/2009

The crowd

O cinema de gêneros, é por vezes engraçado. Geralmente indica qual a linha geral da história e não, como o diretor propõe exibir, ou em como o resultado final se mostra ao público. Muitos suspenses, por exemplo, viram comédia, de tão inverossímeis que são. E também muitos dramas se comportam como um verdadeiro filme de terror de acordo com tamanha carga psicológica que carregam. É mais ou menos assim, que A Turba se comporta.

Para explicar um pouco isso, serei obrigado a revelar o final (melhor plano da história do cinema?), mas só um pouco adiante. O filme, se inicia já na virada do século, em 4 de julho de 1900. Enquanto os americanos comemoram o dia da independência, a casa dos Sims se agita com o nascimento do primogênito, John. Está tudo ali: O novo século fará surgir novas pessoas, que crescerão em um mundo que, mesmo não completamente diferenciado daquele que existia no século XIX, seria um complemento de toda a revolução industrial que o mundo assistia, na qual um dos maiores expoentes talvez seja o cinema.

Protagonistas

Não é de se admirar que o Sr. Sims, repita a toda hora: “Meu filho será um homem importante”, “as pessoas falarão deste menino”. Em uma roda de amigos, já aos 12 anos, enquanto as crianças tem noções do que querem ser (“pregador”, “vaqueiro”, etc), John somente responde que seu pai o diz que será alguém importante. Claro que a maioria daquelas crianças não seguirão seus sonhos e fantasias, mas ao menos tem um rumo para seguir. Já John segue um caminho que será muito trilhado pelas crianças do século XX e XXI: Quero ser alguém conhecido, famoso, importante, não importa como. O objetivo é o resultado de todo o trabalho, não o trabalho em si. Não é surpresa, portanto que ele não conseguirá encontrar algo que goste de fazer.

Em 1921, vai para Nova York, e quando o falam que lá é uma cidade grande, que o engole, ele não se mostra amedrontado, e sai falando que está apenas esperando a sua oportunidade surgir para mostrar trabalho. De certa maneira, ele perto do fim, vivencia que esta é uma das frases mais ilusórias existentes, já que para que a oportunidade apareça, ele precisa em primeiro lugar mostrar trabalho. Se aprende esta lição ou apenas entra na máquina da sociedade, é outra história.

A Turba, James Murray, Eleanor Boardman

O tempo passa, e em uma tomada espetacular, a câmera exibe uma miniatura de um arranha-céu, e vai subindo em uma tilt para um dos andares mais altos do prédio e “entra” por sua janela, uma entre centenas de janelas, e estamos diante de um escritório gigante, com centenas de funcionários cada um em sua mesa, trabalhando, como peças de uma grande máquina (primeira imagem do post). Lá está John Sims, apenas um rosto e um número em meio a multidão. Ele também estuda a noite, mas é convencido a sair um dia com um amigo, e lá conhece a garota de seus sonhos, Mary. Juntos,passeiam por Nova York, e em um momento de lucidez, ambos percebem que são apenas parte de uma engrenagem gigante, que é a metrópole. Mas eles (e especialmente John) se acham superiores, têm certeza de que irão escapar daquele labirinto na qual a cidade os prende.

Obviamente, nada segue o planejado. Eles brigam, vivem num apartamento minúsculo, seguem o ritmo que a vida os proporciona. John segue sem promoção e ainda passa a ter dois filhos para criar. A vidinha continua, enquanto John continua atrás de sua grande oportunidade, que parece surgir ao criar o slogan de uma empresa, e um prêmio de 500 dólares. Mas isso acaba trazendo uma grande tragédia, a morte de sua filha, causando uma depressão ainda maior, com a qual ele não consegue mais seguir em frente na vida. Todos os sonhos se perderam ali; ele decide sair do emprego, mas não pára em nenhum, e com isso, sua esposa acaba se decidindo por ir embora. Mas ele consegue um emprego, fazendo malabarismo para chamar a atenção de um anúncio (como o mesmo cara que eles riram durante o passeio pela cidade), e o amor que ela sente por ele a faz permanecer ao seu lado.

A Turba

Alguns planos são muito marcantes, com um estilo que se aproxima muito do expressionista: A cena em que o menino sobe a escada e descobre que seu pai morreu; ele na sala de espera do médico e todos planos envolvendo o grande escritório que o oprime em um trabalho muito bizarro, de botar números praticamente aleatórios numa ficha.

As sequências externas, em sua maioria filmadas na cidade de Nova York, são impressionantes pelo tom realista, auxiliadas por terem sido feitas com câmeras escondidas. Em uma, inclusive um policial ordena que a equipe de filmagens, saia do local, e a cena foi incorporada. Duas cenas em especial, são magníficas: Quando eles voltam num metrô abarrotado, já mostrando que essa vida cotidiana da metrópole que associamos a atualidade, já existia 90 anos atrás; e quando ele sai pela cidade, tentando fazer com que ninguém faça barulho, já que sua filha está no leito de morte, lutando por sua vida.

A Turba

Mas a metrópole esmaga, realmente. O policial, diz, “a cidade não pode parar porque sua filha está doente”. Como ele chega a conclusão, “a multidão sempre ri com você, mas só chora por você um dia”. Assim como é triste que ninguém se preocupe realmente com a situação deste jovem pai desesperado, em nenhum momento de sua pequena tragédia pessoal (vida), ele também pára e percebe nas outras pessoas, que também vivem problemas igualmente massacrantes. Assim é a vida na metrópole, e assim que ela deve seguir.

O filme termina com o casal e seu filho, indo assistir a uma comédia no teatro. Parece ser o típico final feliz: Depois de tanta tragédia e tristeza, a família finalmente pode viver feliz para sempre. Mas Vidor é inteligente, e consegue tratar tudo aquilo como uma forma de escape. No plano final mais genial da história do cinema, após mostrar a família em plano conjunto rindo e se divertindo, ele produz um grande zoom out, e vemos que toda a platéia também está se divertindo bastante com o espetáculo. A multidão, ou a turba, está ali, e todas as pessoas, muito provavelmente passaram pelos mesmos problemas do protagonista. O riso é um escape para todos, mas a tragédia da vida real os espera lá fora.

A Turba, cena final

E mais impactante do que perceber que todos ali na cena levam esta vida miserável, é notar que o teatro nada mais é do que um paralelismo com a sala de cinema em que os espectadores fazem parte de toda aquela farsa. Só que obviamente eles não estarão rindo, e sairão do cinema mais depressivos do que antes. Porém, encontrando ali uma amostra da vida real, em que podem se identificar com os personagens. O final pode até parecer feliz, mas não é nada mais do que trágico, pois mostra um mundo sem esperança. Mesmo que não tenha problema em dar um pause na vida e se distrair um pouco.

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A Turba
The Crowd
1928, EUA
Dirigido por King Vidor.
Com James Murray, Eleanor Boardman, Bert Roach, Estelle Clark, Daniel G. Tomlinson, Dell Henderson, Lucy Beaumont, Freddie Burke Frederick, Alice Mildred Puter.

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O filme não tem em DVD nem nos EUA. É torcer por passar na TV, ou procurar na internet. A cena mais clássica está aí embaixo, a chegada em NY, a cidade das multidões.


Memories…

05/06/2009

Porque a gente as vezes tem essas lembranças que vem do nada né? agora me lembrei da música “Confortably Numb” do Pink Floyd (que aí abaixo, mas no filme “The Wall”) e me veio imediatamente a mente a versão que toca em Os Infiltrados e claro que me lembrei de tudo no filme, em como vi o filme.

Aonde eu vi é fundamental – Cine Palácio, o mais lindo do Rio (pelo menos desde que eu me mudei em 2006), e que fechou inescrupulosamente ano passado. Tá sendo editado um filme justamente sobre o último dia do cinema, dirigido pelo camarada Bruno Forain e feito com um bando de maluco da UFF e sobre as memóras, mas claro que para ele funcionar tem que ser mais amplo. Mas fico pensando, se fosse uma ficção, ccom um personagem e tudo, seria brega mas seria lindo ver os filmes que marcaram a vida dele ali naquele cinema.

Lá, eu vi cópias restauradas de O Homem do Sputnik e O Poderoso Chefão (lindíssima, da coleção privada do Coppola, tanto que foi exibida rolo a rolo), a primeira vez que vi meu filme do coração, Não Estou Lá numa cabine do festival do Rio 2007… e tantos outros filmes…e enfim era lindo lá.

Depois da sessão de Os Infiltrados, em outubro de 2006 quando tinha acabado de sair da casa da minha tia e ido morar sozinho, ainda tive que sair procurando uma lan house aberta pra enviar meus votos do ranking de festivais de 2006. Sinceramente, não lembro se achei ou se votei no dia seguinte e o Chico deixou mas não importa. E eu vi com o Calac, o Marvin da Liga, o filme. Nem lembro de tanta coisa do filme (só que eu fui o único no jornal pra qual escrevia que curti o Whalberg e jurava q o Tio Jack ia levar o Oscar), mas o que ficam são memórias interligadas.

Tou tendo muitas delas ultimamente.

(Ah e semana que vem quero voltar a postar sobre filmes que andei vendo nos cinemas mês passado!)


Cannes 2009

25/05/2009
Prêmio de atriz para Charlotte Gainsbourg em Cannes 2009

Prêmio de atriz para Charlotte Gainsbourg em Cannes 2009

Cannes distribuiu os prêmios hoje e não teve nenhuma surpresa. Haneke, que já era favorito de antemão pelo fato de Isabelle Huppert ser a presidente do Júri, levou a Palma de Ouro por aquele filme que alguns dizem ser o seu melhor. A França deixou de bisar o prêmio máximo com o favorito de metade da crítica internacional, Un Prophéte.

Fiquei muito feliz com o prêmio pra Gainsbourg. Além de estar esperançoso e muito com o novo Von Trier, sou maior fã dela desde o I’m Not There, além de já adorar ela em outros filmes (Mundo Novo do Crialese por exemplo).

De outra forma interssante também o prêmio de roteiro para Spring Fever, de um cineasta que é barrado lá na China. Prêmio político? E Resnais com um prêmio de consolação, como ele mesmo definiu. E o prêmio pra Andrea Arnold, seu segundo filme, segundo prêmio em Cannes. Red Road eu odiei. E nada pra Almodóvar com seu Los Abrazos Rotos.

Só resta agora esperar que todos ou quase todos destes filmes venham para o Festival do Rio. Ou seria sonhar demais?

Palma de Ouro
“Das Weisse Band”, de Michael Haneke

Grande Prêmio do Júri
“Un Prophète”, de Jacques Audiard

Prêmio do Júri
“Fish Tank”, de Andrea Arnold e “Bakjwi”, de Park Chan-Wook

Prêmio de direção
Brillante Mendoza (“Kinatay”)

Prêmio de roteiro
“Spring Fever”, de Lou Ye

Prêmio de melhor atriz
Charlotte Gainsbourg (“Anticristo”)

Prêmio de melhor ator
Christoph Waltz (“Bastardos Inglórios”)

Palma de Ouro de curta metragem
“Arena”, João Salaviza

Menção especial na seleção de curtas
“The six dolar fifty man”, de Mark Albiston e Louis Sutherland

Prêmio Câmera de Ouro, para diretor estreante
Warwick Thornton (“Samson and Delilah”)

Menção especial do prêmio Câmera de Ouro
“Ajami”, de Scandar Copti e Yaron Shani

Prêmio especial do júri pelo conjunto da carreira
Alan Resnais


Tênis e Roland Garros 1999

23/05/2009

Aqui no meio da arrumação da estante de livros, vendo um blog de tênis sobre as previsões de Roland Garros, que começa amanhã, me lembrei da época em que era realmente fissurado por tênis.

Claro que tudo começou mesmo por causa da Era Guga. Num final de semana de junho de 1997, a notícia de que um brasileiro estava indo muito bem no torneio mais importante do mundo. Nas semis, iria enfrentar um belga que nem lembro o nome, adversário perigosíssimo talvez (Filip Dewulf, que veio do quailifier e nem era nada no mundo do tênis, mas ah, as memórias e a infância). O jogo passou na Manchete, e não é exagero em falar que foi a primeira vez que assisti a um jogo do tal esporte.

Não a primeira vez que acompanhei lances, CLARO, porque em 1996, o tenista de maior destaque até então do país, Fernando Meligeni tinha ido longe (semifinais) nas Olimpíadas, mas acabou ficando só em quarto lugar e por chegar pertinho da medalha eu dei uma atenção ao esporte, mas não cheguei a ver um jogo completo.

Voltando a Roland Garros. No domingo seguinte, acordar cedo para ver a final, versus Sergi Brugera, um espanhol que foi duas ou três (duas) campeão anteriormente. Mas foi uma final tranquila, em 3 sets simples. Um novo esporte se abria. Em questões de dias já sabia tudo sobre Thomas Muster, Michael Chang, Gabriela Sabatini, Steff Graff, Andre Agassi,  e a nova sensação / super-campeã-aos-16-anos Martina Hingis. Já brincava de tênis inclusive no meu quarto (sim, sozinho eu era anti-social, autista e doido já aos 10 anos).

Guga demorou porém para embalar. Esse post todo é sobre isso na verdade, Roland Garros, 1999 porque eu me lembrei vendo um texto/vídeo em homenagem aos 13 anos de um título do Fininho em um aberto americano. E RG ficou marcado na minha memória por muitas coisas aquele ano, inclusive ele.

Eu tinha já TV a cabo, primeiro ano então que pude acompanhar pela ESPN. Em 1998 Kuerten ainda era um tenista se firmando, parou na segunda rodada. 1999 mostrou ele já como um dos principais tenistas do momento, número 8 do mundo.

Ajuda do wikipedia agora… Pois bem, vamos lá: Vitórias sobre Galo Blanco Guillermo Cañas e Sjeng Schalken (yuhu holanda, um dos meus tenistas favoritos). Nisso Fernando Meligeni que era “o outro brasileiro” também vinha de campanha sólida e ganhou do terceiro cabeça-de-chave o galã australiano Patrick Rafter, e eram dois brasileiros nas oitavas. Na escola, todos meus amigos também acompanhavam e alguns jogavam inclusive. Na sexta, uma atenção especial “eram os 32 melhores do mundo que ficaram”. Existia um grande respeito por tudo aquilo. No domingo o Guga ganhou do tcheco Bohdan Ülihrach e na segunda (ou eu tou invertendo) Meligeni ganhou do espanhol cabeça 14 Felix Mantilla. And then there were sixteen.

Era tudo muito mágico, meu primeiro torneio e dois brasileiros nas quartas podendo se enfrentar na semi.  Antes a ATP tinha um ranking genial em que além dos pontos ganhos a medida da rodada em que você avança, também tinha um bônus de acordo com o ranking do adversário. Isso claro beneficiava quem passasse por gente de maior calibre. E com a queda de todos os principais tenistas da época em velhos tempos (não necessiaramente bons, mas enfim) em que o ranking da ATP era embaralhado se Guga fosse campeão (o que parecia a coisa mais óbvia) ele poderia subir ao número 1, mas somente enfrentando Alex Corretja nas semis – o adversário de Fininho nas quartas.

Ficou a grande dúvida então, e uma pergunta ao Guga – “Você prefere enfrentar o Corretja ou o Meligeni?”. Claro que ele respondeu o Meligeni né. havia um gráfico imenso de duas páginas no LANCE! com todas as possibilidades de pontuação. Mas o que ninguém esperava era que aquele ucraniano desconhecido (para mim) Andrei Medveded, o principal rival de Brugera no saibro em meados dos anos 90, fosse ganhar em 3 sets diretos o nosso herói. Sobrou estranhamente Fininho que passou por um abatido Corretja em 3 sets fáceis. Foi um jogo mais duro para o ucraniano, mas naquela sexta Meligeni encerrava sua melhor campanha na carreira.

Foi estranho acompanhar aquela final sem brasileiros no domingo. Mesmo que tivesse uma sensação de que fosse melhor Medvedev ganhar por Guga e Fernando terem perdido para o campeão e de ser algo completamente inesperado eu já gostava um pouco do americano Andre Agassi (e gostei mais ainda quando virou um 0-2 pra ganhar no quinto set), que com o título foi o primeiro a muito tempo a ter os quatro Grand Slams no currículo.

Outras memórias inesquecíveis do tênis viriam. Acompanhar no ano seguinte o final da primeira semifinal de Roland Garros seguida de Guga e Juan Carlos Ferrero (dois jogos inesquecíveis) na rodoviária antes de ir para o Rio e lá ver Guga ser tricampeão sobre Magnus Norman. Ferrero, aliás, o “mosquito” acabou de retornar das cinzas ganhando um título da ATP e é o número 100 do mundo ou por aí. Para quem não conhece ele era a grande sensação do saibro no começo da década e prometia tudo o que Rafael Nadal acabou sendo.

Outro jogo foi quando já no limiar da carreira, Guga ganhou do número 1 Roger Federer na segunda rodada de Roland Grros em 2004. Mas infelizmente acabou parando nas quartas contra o forte David Nalbadian em um grande jogo. E ainda o inesquecível jogo contra Michael Russel nas oitavas ou terceira rodada? (foi um domingo, eu lembro) em que salvou um match point com direito a bola na linha-mas-quase-pra-fora (ou o contrário) rumo ao tricampeonado. Ou ainda um torneio em Wimbledon em 2001 em que os brsileiros foram super bem e eu meio que acompanhei enquanto ia ao centro de Campos assistir aula de inglês(ou fazer prova de segunda chamada mais provavel) em uma sala que me lembrava muito a Londres de Mary Poppins.

Enfim, aquele Roland Garros de 99 ainda ficaria na minha memória por muitas outras coisas. A final feminina em que a grande pequena Martina Hingis perdeu o controle e chorou muito entre o segundo e terceiro set (inclusive um bom tempo trancada no banheiro) depois de ter o jogo nas mãos e perder pra grande Graff.

E o ápice do meu amor pelo tênis, que ainda tem algumas boas revivadas, como na campanha do Bellucci no Brasil Open, ou qualyfing de Roland Garros em que Thiago Alves quaase foi mas não foi. Marcos Daniel (que enfrenta Rafa na primeira rodada) Thiago Bellucci e Franco Ferrero. Eu sem SKY ou Viacabo ou a velha CVC… pelo tenis brasil, mas 2009 não é mais 99.

Só agora que percebi que fazem 10 anos. E nossa, o que mudou desde aquela época… Continua sendo tudo muito importante pra mim, se não fosse não teria perdido uma hora aqui falando as 4 da manha com o quarto todo bagunçado.

99 foi o meu grande primeiro ano, na escola, no cinema, no tênis, os três interligados. Na música, na tv, em tudo. Mais do que simples saudades, memórias fortes. A preservação começa na mente.


O Equilibrista

21/05/2009

man on wire

Quando o filme passou no Festival do Rio, em 2008, juro que não comprei muito a tagline sobre um homem que andou em um fio entre as duas Torres Gêmeas, na década de 70. Depois virou febre no final do ano, teve 100% de aprovação no Rotten Tomatoes (não sei se permanece assim), e era a maior barbada do Oscar, na categoria de documentário, e fiquei morrendo de vontade de ver.

Está numa passagem meteorica pelos cinemas cariocas, em apenas uma sala. Vi hoje a noite, e nossa, que maravilha. O filme não é, de maneira alguma sobre o Philippe Petit, até porque dele apenas sabemos coisas que o levaram a realizar o grande ato: Os treinamentos, a preparação, a relação com os amigos que o ajudaram e outras duas vezes em que ele andou em cima de um arame (man on wire), em cima da Catedral de Notre Dame e numa ponte em Sydney, além de toda a paixão que ele tinha pelas Torres Gêmeas, em uma história certamente exagerada, se não inventada (segundo ele, ao ver a foto de um projeto de construção do WTC quando criança se apaixonou imediatamente e nunca mais deixou de pensar nele).

De fato, o filme trata sobre eventos extraordinários, que não precisam acontecer exatamente com pessoas extraordinárias ou em momentos extraordinários, mas que de fato signifiquem algo para a nossas vidas. É sobre os momentos que nos definem, sobre não se contentar com algo, e ao mesmo tempo privilegiar algo de especial e não tentar esgotar, não se repetir, e sempre se inovar. Inclusive, Petit parece mais empolgado em falar sobre a noite de amor que teve com uma admiradora depois do feito do que a própria caminhada.

As reconstituições são maravilhosas e acrescentam um tom todo especial ao filme, assim como os depoimentos maravilhosos dos que protagonizaram o ato. A entrada de cena de cada um, aliás, é engraçadissima, e a trilha musical, assinada por Michael Nyman, é sensacional.

É engraçado ainda como os EUA viam de um jeito todo especial a caminhada de Petit em 1974 e analisam o filme de um modo todo diferente. É enfatizado no filme, que jornalistas e policiais perguntavam a todo momento a razão dele ter feito aquilo, tentando objetivar um fato meramente artístico. Os filmes, aliás, precisam de uma razão para existirem? Ou digamos uma fotografia esplendorosamente criada? Isso é uma pergunta que o filme não tenta expandir diretamente para o conceito total, mas deixa claro em nunca oferecer ou tentar uma explicação racional para os atos de Phillipe.

E ainda é interessante ver como a maior parte da crítica americana, relaciona o filme à queda das Torres em 2001, e em como o filme “escolheu” não mostrar. Para mim, não houve escolha, em nenhum momento era necessário. Talvez por ser algo muito próximo a eles, e de certa maneira o filme falar sobre os momentos que não podem ou devem ser repitidos, neste caso por uma infelicidade da história / destino, ou seja lá o que for. Mas isso nunca se impõe a narrativa, e o filme de James Marsh navega brilhantemente.


O Equilibrista
Man on Wire
2008, RUN/EUA. 94min
de James Marsh.
Com Philippe Petit, Jean François Heckel, Jean-Louis Blondeau, Annie Allix, David Forman, Alan Welner, Mark Lewis, Barry Greenhouse, Paul McGill, David Demato, Ardis Campbell, Aaron Haskell, Shawn Dempewolff-Barrett, Jim Moore, Guy F. Tozzoli.


Últimos Dias

17/05/2009

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“Últimos Dias” (“Last Days”, 2005, EUA) de Gus Van Sant. Com Michael Pitt, Lukas Haas, Scott Patrick Green, Asia Argento, Nicole Vicius, Ricky Jay, Ryan Orion, Harmony Korine, Adam Friberg, Andy Friberg, Thadeus A. Thomas.

É bem engraçado perceber como os filmes de Gus Van Sant se comportam. Alguns de seus filmes, geralmente os mais comerciais, parecem um tanto otimistas e sempre tratar de superações, mesmo que quase sempre acompanhado de um tom irônico e sarcástico, como se de verdade ele soubesse que tudo aquilo não passa de uma visão utópica, e nisso reside a grande força da cena final de “Milk”, por exemplo.

Mas alguns outros fazem parte de filmes que examinam a humanidade de uma maneira nada positiva. “Últimos Dias” que infelizmente foi lançado direto em DVD no Brasil, pertence a este grupo. Nele vemos Blake(Michael Pitt, numa atuação fora de série), um famoso astro de rock que foge de uma clínica e se refugia numa casa onde estão alguns amigos.

Desde o primeiro plano, vemos Blake caminhar a esmo em uma floresta. É sobre isso que o filme trata, a falta de rumo deste personagem, que tenta fugir a princípio da pressão do mundo empresarial, mas resumir a apenas isso seria simplista demais. É uma rebeldia sem causa praticamente, sem saber de que exatamente está se escapando e pior ainda não ter nenhuma esperança de alcançar uma luz.

Não à toa, o filme opta por tons muito escuros, acentuando este desespero do protagonista, que se estende também aos demais personagens. Enquanto Blake permanece num mundo próprio, com raros momentos de contato exterior, acentuando todo esta apatia, os outros continuam ali, em um jogo social, mesmo que entre eles, mas que também não parece apontar para nenhuma resolução. Escondidos no mundo, procuram soluções entre si, mas nunca conseguem chegar perto.

No final, com a morte de Blake, eles continuam sua jornada, agora fugindo dos rastros que possam os conectar à tragédia. Suas buscas incessantes continuam, permanecer sempre em movimento para tentar encontrar uma saída, que Blake de certa forma encontrou, com a subida de sua alma. Não é exagero nenhum, a meu ver, comparar a história dele à de Jesus, corroborada pela aparição dos 2 irmãos gêmeos que tentam evangelizar os moradores da casa, e contam a história de Jesus, aproximando muito Blake de um Cristo revisitado.

É impressionante ainda o trabalho de som do filme, e para quem vai ver o filme em casa é imprescindível botar o volume nas alturas. O som tem uma presença muito marcante em acentuar a solitude que Blake vive, em um mundo próprio sem contato externo. Leslie Shatz, inclusive recebeu o prêmio técnico no Festival de Cannes.

Perto do fim, quando Blake se aventura em deixar o refúgio e chegar numa festa, cheia de amigos seus e pessoas próximas a seu estilo, o filme mostra que elas estão igualmente perdidas, o que se acentuaria enormemente nos próximos anos. Blake percebe isso e decide retornar ao seu destino.