ANTICRISTO

02/09/2009

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Anticristo não é tudo isso que falaram. O novo filme de Lars Von Trier é sim, repleto de imagens fortes e chocantes, mas após o primeiro susto é difícil se levar pelos maltratos do cineasta. Ou seja, não choca, nem é forte. Por outro lado, Anticristo é sim tudo isso que dizem. É um dos filmes mais provocantes da história. Ou melhor, tenta ser.
Durante sua carreira, o diretor dinamarquês tentava apontar o dedo pras grandes tragédias sociais, apontando que o homem agia mal a partir de causas sociais maléficas, mesmo que impregnadas nos homens. Seja em Dançando no Escuro, Dogville ou Europa tínhamos personagens que eram vítimas de situações causadas ou pela cultura ou por ações do coletivo, e quando a história não terminava em tragédia completa (a morte ou a segunda guerra por exemplo), causava um trauma profundo.

Aqui, temos a inversão de sintomas. Primeiro vem o trauma profundo (morte do filho do casal interpretado por William Dafoe e Charlotte Gainsbourg), seguimos para a tragédia pessoal, e finalmente a tragédia social. Isso é consequência de uma mudança de visão de Lars Von Trier no que causa o mal. Se antes, era por causas sociais, agora o mal vêm de dentro e todas estas grandes tragédias e conflitos se dá justamente por tantos homens (e mulheres, como acusa o diretor) terem uma alma tão vil.

E nisso reside o grande pecado do filme. O diretor quer nos acreditar que o homem, em seu estado de natureza mais primitivo poderia causar tudo que acontece na segunda metade do filme. É muito falso, hipócrita, maléfico e perturbador, falso, para não dizer que Lars Von Trier nos choca apenas pelo prazer mórbido de chocar, auxiliado pela visão complicadíssima, para não dizer totalmente ridícula de tratar de uma forma completamente machista o femicídio em voga nos séculos anteriores.

Isso poderia até ser contestado se o dinamarquês tratasse pelo viés de que tudo não passa de uma loucura, ou uma grande metáfora. O que concerne a primeira parte, em nenhum momento Von Trier dá a entender que isso é um ato isolado. Inclusive, no início, o personagem “científico” do marido diz sempre que o luto da esposa não é atípico, é um comportamento normal. E a cena final deixa claro que como sempre Von Trier expande seu recorte para a sociedade como um todo.

No campo da metáfora, até se pode relacionar o medo da protagonista ao medo divino, totalmente irracional, e quando este medo é deixado de lado, podemos fazer tudo que nos dá vontade, até as coisas mais abomináveis. O contexto sexual intensifica mais esta interpretação. Mas de qualquer maneira, não absolve o filme, nem o diretor. É um filme que pode impressionar, e impactar em pequeno grau, mas não consegue apresentar nenhuma tese sobre o comportamento aceitável, quando seu tiro não sai pela culatra, completamente.

Charlotte Gainsbourg, porém, está magnífica e é uma pena que a personagem que ela compõe não ganha um correspondente à altura pela direção do filme.


Anticristo
Anticrist, 2009, DIN/ALE/FRA/SUE/ITA/POL
Dirigido por Lars Von Trier. Com William Dafoe, Charlotte Gainsbourg.

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